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O único perigo é a FEBRE AMARELA

Fonte: O CAFEZINHO: Que tal 53 bilhões para infraestrutura?

Exclusivo! Brasil vai esnobar os US$ 53 bilhões de Pequim?
10 outubro 2015Carlos EduardoEconomia31 comentários
O Cafezinho apresenta, neste post, uma entrevista exclusiva com
Evandro Menezes de Carvalho (foto), professor na Universidade de
Finanças e Economia de Xangai.

Antes, porém, gostaria de tecer alguns comentários sobre o tema.

O primeiro-ministro chinês esteve recentemente no Brasil, anunciando a
disponibilização de US$ 53 bilhões para o Brasil investir em
infraestrutura.

As autoridades brasileiras acrescentaram que este valor é só o começo.

A China tem interesses geopolíticos fortíssimos em investir em
infraestrutura no Brasil, porque ela quer garantir aqui a sua
segurança alimentar.

Ela quer construir uma ferrovia bioceânica ligando o Brasil ao
Pacífico, para que ela possa transportar mais rapidamente os alimentos
que importa do Brasil.

E não é apenas soja, não.

Após os acordos fechados recentemente entre os governos de Brasil e
China, a China está em vias de se tornar a maior compradora de carne
brasileira. E carne dá muito mais dinheiro do que soja.

Se o Brasil já fatura 20 bilhões de dólares por ano vendendo soja crua
para a China, imagina o quanto não pode faturar com carne?

A corrente de comércio entre Brasil e China totalizou US$ 48 bilhões
de janeiro a agosto deste ano, com um saldo a nosso favor de US$ 3
bilhões.

Nos últimos anos, a China tem sido o nosso principal parceiro comercial.

Mesmo assim, a nossa imprensa parece ter esnobado os US$ 53 bilhões da China.

Os jornalões brasileiros só querem saber de escândalo, Lava Jato,
contas de Eduardo Cunha. Obecada por golpe, a mídia brasileira parece
ter se esquecido da própria economia nacional.

Nenhum dos jornais ou canais de TV investiu em infográficos e vídeos
sobre a ferrovia bioceânica, e as oportunidades – econômicas,
políticas, culturais – que ela abriria para o Brasil, visto que
materializaria o sonho de Simon Bolívar de integrar a América Latina.

O Brasil, em meio a uma crise econômica, num delicado momento da
economia global, vai esnobar o ouro de Pequim?

Não é possível que o viralatismo tenha degenerado a tal ponto o
caráter da nossa burguesia que ela não queira o dinheiro da China, por
algum tipo de preconceito político!

Os americanos não tem preconceito nenhum contra a China. Por que a
gente teria?

Os EUA já usaram e abusaram da China.

A China tem mais de 1 trilhão de dólares aplicados em títulos públicos
do Tesouro Americano. É quase um terço de toda a dívida pública
americana.

Ou seja, a China meio que comprou – pagando em cash – a sua entrada no
mundo capitalista.

E agora quer investir no Brasil para garantir, por alguns milhares de
anos, segurança alimentar para seus habitantes.

Para o Brasil, é uma oportunidade histórica de captar os recursos
necessários para aprimorar a nossa infraestrutura.

Precisamos, para usar uma expressão maoísta, dar o Grande Salto para a
Frente, que seria, de um lado, cruzar o Brasil de ferrovias modernas,
ligando capitais, e ligando os mercados latino-americanos entre si; de
outro, construir malhas ferroviárias (metrôs, trens e VLTs) em nossas
grandes cidades.

A China pode nos ajudar. Ela tem o dinheiro, o interesse geopolítico,
1 bilhão e meio de estômagos pra alimentar, o know-how, a tecnologia.

Isso não atrapalhará em nada nossas relações com EUA e Europa. Muito
pelo contrário. A saída para o Pacífico facilitará nossas exportações
para a costa oeste dos Estados Unidos; e nos dará acesso a esta nova
grande figura geopolítica que alguns estão chamando de Eurásia (Europa
+ Rússia + Ásia).

Se os EUA quisessem investir US$ 50 bilhões em ferrovias no Brasil,
seriam bem vindos!

Abaixo, uma entrevista exclusiva que eu fiz há alguns dias com um dos
maiores especialistas brasileiros em China, Evandro Menezes de Carvalho.

Evandro escreve livros sobre a China. Produz relatórios e memorandos
sobre a situação no Brasil para a alta cúpula do governo chinês. Mora
na China há alguns anos, como professor/pesquisador/palestrante
convidado nas mais importantes universidades chinesas.

Nessa entrevista, Evandro dá uma aula magna sobre a China. Ele explica
que, no país, há uma integração entre universidade, governo e mercado.
O governo e os agentes econômicos usam as universidades para se
abastecer de projetos e inteligência.

Eu conheci Evandro através de um grupo whatsapp do qual participamos.
Descobri ainda que ele possui um blog muito bom sobre a China, o qual
inclusive já inseri na seção Blogs Seletos, na coluna lateral.

***

O Cafezinho: Boa noite, Evandro. O que você faz na China, como chegou
aí, quanto tempo está aí, quanto tempo mais vai ficar?

Evandro: Eu vim pra cá inicialmente por ter sido selecionado como
Senior Scholar no âmbito do Programa OEA e China Scholarship Council.
Num primeiro momento fiquei vinculado à Faculdade de Direito da
Universidade de Shanghai de Finanças e Economia. Em seguida recebi o
convite para ser professor visitante do Center for BRICS Studies da
Universidade Fudan. Estou aqui há quase três anos. Este é meu último
ano.

OC: Você dá aula de direito aí?

Evandro: Faço pesquisas mais voltadas para as instituições
jurídico-políticas da China e a relação bilateral com o Brasil. Tenho
alguns compromissos de dar palestras sobre temas específicos. A
maioria relacionados ao Brasil e ao BRICS. Também tive a oportunidade
de participar de vários seminários. Aliás, o circuito acadêmico aqui é
intenso e circula gente do mundo inteiro.

OC: Há alguns meses o primeiro escalão da China veio ao brasil em
visita oficial. A China prometeu 53 bi de dólares pra infra estrutura.
E isso num momento que precisamos tanto. Estranhamente não se ouve
mais nada sobre isso na mídia. Qual sua opinião sobre isso?

Evandro: A visita do Primeiro Ministro chines Li Keqiang ao Brasil,
com o anúncio de investir 53 bilhões, evidenciou que o nosso país é um
parceiro de fato estratégico. Em menos de um ano, as duas maiores
autoridades chinesas vieram ao Brasil. No ano anterior o Presidente Xi
Jinping esteve em Fortaleza para a Cúpula dos BRICS, onde anunciaram a
criação do Novo Banco de Desenvolvimento. Estamos falando de
iniciativas concretas que impactam positivamente a nossa economia. A
relativa indiferenca com que estes fatos são tratados pela mídia se
deve a diversos fatores, sendo o principal deles a persistência de uma
mentalidade típica do período da Guerra Fria, como se a China ainda
fosse uma ameaça. A China não é uma ameaça para nós. Ao contrário. E
este discurso de haver uma ameaça chinesa serve a outros interesses.
Se não estivermos preparados, qualquer país será uma “ameaça”. E
quanto a China, ela pode ser uma grande parceira.

OC: Quais as melhores fontes de informação sobre política, economia e
cultura na China, em inglês?

Evandro: A China tem inúmeras empresas de comunicação que publicam
jornais e revistas em inglês. Há o jornal China Daily e o Global Times
que são boas fontes. A revista China Today é muito boa também. Ela
agora é publicada no Brasil, em português, com o nome China Hoje. O
China Daily tem agora uma edição para a América Latina, mas em inglês
e é quinzenal. Alem disso há o site, em português, da Radio China
Internacional que é bom também. Na internet pode-se ter acesso a CCTV
News, canal estatal de notícias da China. Há muitas outras fontes.
Estas são as que eu mais gosto.

OC: E como os chineses se informam sobre o Brasil, você sabe?

Evandro: Eles tem correspondentes no Brasil. A Xinhua News, a Radio
China Internacional, a CCTV, o People’s Daily etc. todos tem
correspondentes no Brasil. O Brasil tinha apenas um correspondente e
que era da Folha de São Paulo. E já não está mais na China. Ou seja,
eles estão mais interessados em saber sobre nós do que nós sobre eles.

OC: Esses jornais e revistas são estatais, né?

Evandro: Sim, são.

OC: Tem algum telejornal pela internet que você conhece?

Evandro: Sim, a CCTV tem inúmeros canais online. É o principal. E há
outros canais de tv das províncias. E os chineses adoram sites de
filmes. São também sites chineses.

OC: Se um sujeito tivesse que escolher cinco livros para ler sobre a
China, quais você indicaria ?

Evandro: Há inúmeros livros no mercado hoje. Kenneth Lieberthal e
Jacques Gernet são uma boa introdução.

OC: Que cidades você conheceu aí na China? Como é a mobilidade urbana
nelas, em comparação à outras cidades do mundo?

Evandro: Conheci algumas cidades: Shanghai (onde moro), Beijing,
Nanjing, Chongqing, Hanzhou, Suzhou, Beihai, Jinan, Nanning… As
grandes cidades tem um sistema de transporte público muito bom. Quando
cheguei em Xangai havia 13 longas linhas de metro. Em dois anos
construiram mais duas. Além disso, sempre há vias para as bicicletas e
motos elétricas. Mas a quantidade de carros aumenta. Alguns governos
municipais já estão tomando algumas medidas. Em Xangai, o preço da
placa do carro é quase o preço do próprio carro.

Esqueci de mencionar Chengdu, que é muito bacana. Hong Kong e Macau também.

OC: A vida aí é cara? Quanto custa jantar em um restaurante?

Evandro: A vida em Xangai é cara. O aluguel aqui compete com o Rio. O
cambio era 3 yuan pra 1 real, agora são 2 pra 1. Alimentação é muito
próximo dos padrões das capitais do Brasil. Mas Xangai é Xangai. Aqui
tem muita riqueza. Mas em outras cidades da China o custo de vida é
bem mais baixo.

Evandro: O chinês gosta muito de compartilhar a mesa com familiares e
amigos. A cachaça deles é o “baijiu” feito do arroz. Teor alcoólico
alto. Tomar um baijiu com eles é sinal de que você é cobsiderado un
amigo. Melhor ainda se vc ficar bêbado. Sinal de total transparência.

OC: Voltando aos 53 bi que a China quer investir no Brasil, na
ferrovia bioceânica, em hidrelétricas, de vez em quando alguém
manifesta apreensão de que isso poderia implicar em precarização de
mão de obra, outros temem algum tipo de imperialismo chinês. Enfim,
diga com sinceridade, em que deveríamos tomar cuidado para que esse
dinheiro venha e isso não nos prejudique?

Evandro: Devemos ter cuidado com nós mesmos e não com os chineses. O
desvio de verba, uma burocracia pesada que tudo dificulta, a falta de
planejamento, de capacidade de execução etc. Tudo isto nos prejudica.
Os chineses não são problema.

OC: Você acha que o maior obstáculo então pra esse dinheiro chinês se
materializar em obras no Brasil está aqui mesmo? Por parte da China,
eles estão mesmo querendo fazer a ferrovia bioceânica? E outras obras?

Evandro: Sim, estão. E já estão acionando os centros de pesquisa deles
para compreender todo o cenário, os riscos a se evitar e as
oportunidades a se desenvolver. Este é um aspecto que os centros de
pesquisa e universidade deviam ficar atentos. Tem recursos pra isso
vindo da China. Mas parece que estamos todos cegos para estas
oportunidades.

OC: Como é esse negócio de “comunismo de mercado”. O chinês pode abrir
livremente um negócio qualquer numa cidade? Há financiamento para isso?

Evandro: A abertura econômica da China começou com Deng Xiaoping e,
desde então, dá passos seguidos nesta direção. As empresas estatais
competem entre si e, cada vez mais, há grandes empresas privadas, como
Alibaba e o Wanda Group. O governo de Shanghai está estimulando a
criação de start ups. O chines pode abrir seu negocio sim. O comercio
está na veia do chinês. Recentemente o governo de Shanghai facilitou
visto para jovens estrangeiros que concluíram a graduação aqui e
queiram abrir seu próprio negocio. Além disso, o governo tem criado
varias zonas francas onde os preços de tudo são baixísimos.

A China acompanha e controla atentamente a presença de empresas
estrangeiras aqui. Mas elas não param de vir e investir na China. A
presença brasileira é que é muito incipiente. Só na cidade de Taicang,
há 1 hora de Xangai, há mais de 200 empresas alemãs. Isto mostra bem a
dimensão do interesse pelo mercado chinês.

OC: Há muita pobreza nas grandes cidades?

Evandro: Quase 1/3 do mercado de luxo do mundo está sendo consumido
pelos chineses. As marcas de luxo estão por todos os lados em Xangai.
O capitalismo está presente. Porém, ainda se vê alguns pedintes nas
ruas, em algumas entradas de metrô. Mas não é algo generalizado. No
geral não se vê pobreza nas grandes cidades como parte inevitável e
indissociável delas. No entanto, a China é um pais em desenvolvimento.
Apesar de ter tirado centenas de milhões da pobreza, ainda tem um
longo caminho pela frente para se tornar de fato um país desenvolvido.

OC: Há dados independentes sobre a aprovação do governo? E sua
sensação pessoal? Os chineses que você conheceu, são otimistas em
relação a China? Aprovam as políticas do governo?

Evandro: Os chineses aprovam o governo de Xi Jinping. Nunca viveram
situação econômica igual. E acho que são otimistas. Eles tem um certo
sentido de pertencimento como nação. Aspiram por uma vida melhor e
estão diariamente lutando por isto. Ha obstáculos sim. Ha corrupção
também. Mas onde não tem? E apesar disto, os chineses seguem firme na
luta diária querendo uma vida melhor.

OC: Você mencionou a existência de uma vida acadêmica intensa aí na
China. Também falou em recursos disponíveis para centros de pesquisa
no Brasil. Pode falar um pouco mais sobre essas duas coisas?

OC: Aqui governo, empresas e universidades caminham na mesma direção.
Explico. O governo sempre consulta os principais centros de pesquisa
quando quer iniciar ou avaliar uma política pública. E as empresas,
maioria estatais, atuam para alcançar objetivos maiores, de interesse
do Estado. A vida acadêmica está, portanto, em estreita conexão com os
grandes temas de interesse nacional. Participam por meio das pesquisas
e seminários, e ainda que indiretamente, dos processos decisórios e da
vida nacional. Diferente do Brasil onde governo, empresa e academia
não se comunicam bem. É cada um para um lado, fazendo o que quer e
como bem entende, sem prestar atenção numa agenda maior, na busca do
interesse nacional. O governo chinês tem despejado recursos nas
universidades. As universidades estrangeiras de países com quem a
China tem relação estratégica, souberam aproveitar a oportunidade e
fizeram boas parcerias. Mas no Brasil continuamos a olhar apenas para
a América do Norte e a Europa. O pesquisador está pouco disposto a ir
para um país distante como China, Rússia, África do Sul, Turquia, ou
países árabes. Sem falar no fato de que mal conhecemos a própria
América do Sul.

OC: Obrigado !

Evandro: Foi um prazer. Eu que agradeco!

 

 

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